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23 jun 2019

Libra: os perigos, os benefícios e o futuro do mercado

por Caique Araujo
Tendências 9 mins. de leitura

O mercado das criptomoedas foi à loucura recentemente. Tudo por causa de um anúncio histórico. Tivemos um vislumbre da primeira moeda digital que promete revolucionar o mercado e, por consequência, popularizar esse modelo. Todo alvoroço ficou por conta do Facebook e sua nova criptomoeda: a Libra. Mas, quais seriam as possíveis implicações para o futuro do mercado mundial? Acompanhe!

Eu não sou nenhum especialista no mercado financeiro, mas o universo tecnológico está entre uma das plataformas que domino. Foi em 2008 que a primeira criptomoeda nasceu, o Bitcoin. A promessa era revolucionar o mercado financeiro e propor um sistema independente e descentralizado. Para muitos, a liberdade financeira estava fincando sua bandeira no universo comercial.

A origem das moedas digitais

Apesar da expectativa, as coisas não saíram como planejado. Isso devido a “impopularidade” da moeda. Veja bem, o Bitcoin é mundialmente conhecido e também amplamente utilizado, mas não o suficiente. Você não faz uma compra online na sua loja preferida com uma parcela das suas riquezas em Bitcoin. Por algum motivo, a moeda digital teve força apenas para popularizar entre as pessoas que já estavam mergulhadas na tecnologia.

Isso se deve a muitos motivos mercadológicos, mas, entre eles, o fato do Bitcoin precisar ser minerado. Não era qualquer pessoa que entendia sobre o assunto. “Como assim minerar uma moeda digital?”. Pois é, era e ainda é preciso que as transações realizadas em Bitcoin sejam processadas e para isso existem os mineradores. O papel deles é encontrar a combinação perfeita entre os blocos de transação e, como recompensa, cada bloco minerado resulta em Bitcoins para eles.

Algum tempo depois, a mineração foi perdendo força por se tornar inviável e com os enormes aumentos na valorização da criptomoeda, o mercado de investimento abriu os dois olhos e decidiu fisgar esse peixe. É o momento em que o Bitcoin e várias outras moedas digitais tornaram-se o que são hoje: ativos de investimentos. Traders, investidores iniciantes e até os mais profissionais, passaram a realizar a compra e venda deste ativo como forma de ganhar dinheiro.

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Bitcoin: a criptomoeda como ativo de investimento

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Por ser uma moeda digital sem lastro, o Bitcoin tem oscilações significativas em seu preço. Tudo isso, é claro, baseado nas crenças do mercado.

Por outro lado, o Bitcoin também abriu espaço para o “mercado negro”. Por se tratar de um ativo financeiro descentralizado, não existe oficialmente um meio fácil de rastreá-lo. Afinal, tudo que consta nos registros são as “carteiras digitais”. Estas, por sua vez, são como uma “conta corrente” voltada para as criptomoedas. Com essa facilidade de transações em anonimato, tornou-se cada vez mais comum que organizações criminosas trabalhassem com a moeda.

Agora, sem dúvidas, uma das melhores coisas que o Bitcoin trouxe para o mundo foi o blockchain. De forma simples, o blockchain é a tecnologia que sustentou a moeda e vem sustentando todas as outras. Um tipo de banco de dados distribuído cuja a função é servir como um livro-caixa de contabilidade pública. Nele que são registradas todas as transações de Bitcoin, por exemplo. E as aplicações da tecnologia são inúmeras, mas que não cabem a esse artigo.

A popularização das criptomoedas

Pois bem, de uns dois anos para cá as criptomoedas começaram a atingir melhor a grande massa. Com isso, inúmeras moedas “peculiares” foram criadas, por exemplo. Como é o caso da Ronaldinho Soccer Coins. Muitas delas, sem sucesso. Mas, era apenas uma questão de tempo até que uma empresa de grande influência lançasse a sua própria moeda. Isso, definitivamente, de um jeito ou de outro, transformaria o mercado.

A nascimento da Libra

“Criar uma moeda global simples e uma infraestrutura financeira que dá poder a bilhões de pessoas. Reinventar o dinheiro. Transformar a economia global. Para que as pessoas em todos os locais do mundo possam ter vidas melhores.”

É com essa missão que nasce a Libra. Um projeto do Facebook com o objetivo de facilitar a troca de moeda no mundo em desenvolvimento. “1,7 bilhão de pessoas não têm conta bancária, 31% da população do mundo”, disse a empresa enquanto apresentava o projeto. A Libra, por sua vez, pretende atingir esse mercado. Criar uma alternativa para que ela seja a conta principal dessas pessoas. Um lugar onde elas poderão poupar, pagar e fazer transferências.

“Uma criptomoeda de baixa volatilidade, com base em um blockchain descentralizado com o objetivo de criar uma nova oportunidade para a inovação de serviços financeiros responsáveis.”

Para atingir essa meta, o Facebook optou por criar sua própria tecnologia blockchain para gerenciar a Libra. E, afim de transformá-la de fato em um ativo seguro, a moeda estará atrelada a uma reserva real. Na prática, eles irão lastrear cada moeda à um conjunto crescente de ativos líquidos e estáveis. Sendo esses a partir dos investidores do projeto e dos usuários que utilizarão a moeda.

Essa estratégia garantirá que, segundo eles, “assim como os consumidores na Europa sabem que a quantidade de euros necessária para comprar um café hoje é semelhante à de amanhã, os detentores de Libra também poderão confiar que o valor de suas moedas hoje será relativamente estável com o passar do tempo”. Dessa forma, haverá uma estabilidade e também será possível trocar a Libra por moedas reais com base em uma taxa de câmbio estável. Posicionando a moeda, no fim, como uma stablecoin. De acordo com a empresa:

“Para ajudar a dar confiança a uma nova moeda e alcançar uma maior adoção no início, tradicionalmente as notas do país podiam ser trocadas por recursos reais, como o ouro. Em vez de embasar a Libra com o ouro, ela será apoiada por um conjunto de recursos de baixa volatilidade, tais como depósitos bancários e valores públicos de curto prazo de moedas de bancos centrais estáveis e de reputação.”

E é essencialmente essa proposta que torna a Libra distante de todas as demais criptomoedas comuns, entre elas o Bitcoin. Afinal, nenhuma delas possui uma reserva financeira por trás, propiciando que a taxa de câmbio varie com uma enorme instabilidade, baseado na crença do mercado. Esse é o principal motivo, aliás, pelo qual essas moedas são tão difíceis de serem popularizadas pela massa no dia a dia, funcionando melhor como ativos de investimento.

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Libra para Todos

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A proposta de projeto da Libra, apresentada pelo Facebook.

Embora a Libra seja “independente”, ainda ficará a cargo da Associação Libra. Uma organização suíça independente e sem fins lucrativos. Sendo composta por vários parceiros do Facebook. E, acredite, o projeto conta com nomes poderosos do mercado, entre eles: Mastercard, Paypal, Visa, Booking.com, eBay, Spotify, Uber, Vodafone, Coinbase, Kiva e Banco Mundial das Mulheres. O objetivo dos parceiros será “coordenar e prover de um marco a administração da rede e também dirigir os empréstimos de impacto social em apoio da inclusão financeira”.

Em uma análise aprofundada e com base no discurso apresentado pelo Facebook, nota-se, todavia, que a Libra apresentará poucas características que irão satisfazer os usuários habituais da criptomoedas. A principal delas, é claro, a incapacidade do ativo funcionar como base de investimento. Mas, a mais “crítica” para a comunidade, talvez, é o princípio da privacidade.

Quem já está habituado com as moedas digitais dialoga principalmente com sua missão “a liberdade das operações não atreladas a instituições”. Entretanto, agora estamos falando do Facebook que recentemente deu um passo ao fim da privacidade. E, mesmo com toda documentação, ainda não ficou claro como esses “parceiros” irão lidar com os dados dos usuários. A expectativa menos positiva, pelo menos, é que muitas empresas terão o poder de visualizar todas as operações na rede uma vez que a tecnologia blockchain do Facebook não provê nenhuma das características intrínsecas à tecnologia.

“O que o Facebook, ou qualquer empresa como o Facebook, está propondo não é uma criptomoeda. Não possui nenhuma das características fundamentais da criptomoeda. Não fica nos cinco pilares de um blockchain aberto. Estes são abertos, públicos, neutros, resistentes à censura e sem fronteiras. O Facebook deixou a verdadeira descentralização pelo caminho em troca de um apelo mais amplo da indústria.” – Andreas Antonopoulos, evangelista do Bitcoin, em entrevista ao CCN.

A princípio esses dados de transações parecem ser inofensivos, mas uma vez que eles estão atrelados aos usuários dos aplicativos do Facebook, passam a ser rastreáveis. Assim como a empresa já rastreia os sites que você visita, por exemplo. Talvez seja por isso, aliás, que a aposta da Libra esteja centrada em países em desenvolvimento. Esses por sua vez que não possuem como principal preocupação a privacidade, como acontece nos países já desenvolvidos.

O futuro do mercado com a Libra

Na prática, os riscos concentram-se na premissa da popularidade. Tudo é baseado em “e se a Libra popularizar…”. Mas, como o Facebook pretende trabalhar com a moeda dentro dos seus apps e, também, nas redes dos parceiros, é certo que isso poderá revolucionar o mercado financeiro. Se tiver sucesso, nós teremos um meio de pagamento mundial que acabará com a necessidade de utilizar bancos para fazer transferências, cartões de créditos/débito para realizar pagamentos e não haverá necessidade de cambio para transferir dinheiro entre países.

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Aplicativo da Libra

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Com um aplicativo dedicado a Libra também funcionaria como um banco privado.

Com o tempo haveria uma total transformação nos meios de pagamentos mundiais. Inclusive, caso a Libre torne-se, de fato, uma moeda mundial, ela terá o poder para gerar uma nova ordem econômica mundial, garantindo um impacto sem precedentes nas economias locais. Acredito que, com isso, os bancos centrais de cada país podem perder, parcialmente ou totalmente, o controle sobre o fluxo de entrada e saída de capital e, quem sabe, perdendo o controle sobre a sua moeda. Isso fica claro no seguinte termo na documentação da reserva da Libra:

“No lado do usuário, para que novas moedas de Libra sejam criadas, deve haver uma compra equivalente de Libra com moeda fiduciária e a transferência desta para a reserva. Assim, a reserva crescerá ao mesmo passo em que a demanda dos usuários por Libra. Em resumo, tanto do lado do investidor como do usuário, existe apenas uma forma de criar mais Libra: por meio da compra de mais Libra com moeda fiduciária e do aumento da reserva.”

Em outras palavras, as economias locais “migrarão” para a reserva atrelada a moeda, saindo do país de origem. Agora, pare um minuto, e imagine o tamanho e a proporção que esse reserva poderá tomar com o alcance de 1,7 bilhão de pessoas. Mesmo que indiretamente, é possível presumir que, para todas as empresas associadas à reserva, um ativo muito poderoso esteja a disposição.

Não é atoa que o cofundador do Facebook, Chris Hughes, decidiu comentar o fato. De acordo com a visão dele, caso a Libra seja bem-sucedida, ela permitirá que as empresas envolvidas no projeto tenham um controle significativo das políticas monetárias dos bancos centrais. E, alertou “se os reguladores globais não agirem agora, em breve já será tarde demais”. Ele ainda reforçou para o Financial Times, que o projeto atingirá negativamente principalmente os países emergentes. Afinal, ela ameaçaria a capacidade dos governos administrarem sua política fiscal.

Logo após o anúncio a França já unificou seus esforços de construir uma força-tarefa para estudar a criptomoeda. Em suma, embora não seja contra a ideia do Facebook criar um instrumento para transações financeiras, é contrária à ideia da moeda tornar-se soberana. E é bem possível que essas discussões se estendam por mais alguns meses. Afinal, todos os preocupados estão conectados aos países desenvolvidos.

Mas, e as vantagens da Libra?

É evidente que apesar de alguns aspectos questionáveis, a Libra tem um propósito valioso e, consigo, inúmeras vantagens. Entre elas, o acesso à informação e à liberdade financeira. Como o próprio projeto apresenta, o público-alvo são as pessoas mais atingidas pelo progresso do mundo globalizado. Entre elas, por exemplo, os habitantes dos países africanos. Estes que, por sua vez, encontram-se em países com economias, muitas das vezes, insustentáveis.

Perguntas (e respostas) diretas sobre a moeda digital

1. Para que serve?

De acordo com o próprio Zuckerberg, a Libra foi idealizada para facilitar as transações financeiras para mais de um bilhão de pessoas que não tem acesso a contas bancárias. No entanto, essa é apenas uma justificativa poética. Na prática, a moeda impulsionará o comércio dentro da rede social e, também, dos parceiros envolvidos.

2. Quando chega ao mercado?

A previsão é que a moeda estará disponível oficialmente, para ser negociada, apenas no primeiro semestre do próximo ano, 2020.

3. Como será o uso no dia a dia?

A promessa é que ela poderá ser utilizada tanto em transações virtuais como em compras físicas, algo que nenhum moeda digital foi capaz de fazer antes. Com nomes como Visa e Mastercard atrelados ao projeto, fica claro que, em breve, cartões da Libra possam ser lançados.

4. Quais serão os custos e as taxas?

Sabemos que nada é de graça. No caso da moeda, a negociação provavelmente exigirá um percentual para a empresa que a faz. Mas, Zuckerberg fez questão de dizer que esses custos serão extremamente baixos. Os valores ainda não foram divulgados.

5. Será bom ativo de investimento?

Dificilmente. Fica claro na documentação divulgada que os usuários não receberão os juros dos títulos que farão parte da reserva da moeda. E, justamente por ser uma stablecoin, a compra e venda do ativo não renderá lucros como o Bitcoin, por exemplo.

6. Será o fim do Bitcoin?

É impossível saber, por enquanto, como será a reação das demais moedas. A meu ver, o Bitcoin continuará sendo impraticável para os usuários comuns. Mas, com a popularização da Libra, o mercado, talvez, fique mais aberto a moeda que dificilmente terá o seu fim com tantas transações de investimento ainda acontecendo.

Como essa história termina?

Na minha humilde opinião e experiência de mercado, o impacto do lançamento da moeda será significativo. Isso é, ao mesmo tempo, fascinante e assustador. Por fim, resta saber como essa história vai continuar. E por hora estamos repletos de especulações.

O único fato certo é que a Libra permitirá, pela primeira vez na história da humanidade, que as moedas digitais se popularizem entre o público comum. Mas, será que estamos preparados para isso?

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